quinta-feira, 23 de junho de 2011

CAXEMIRA


Quando se chega à Caxemira logo se entende porque a Índia, o Paquistão e, por vezes, a China, vivem se degladiando por causa dessa região. A beleza é algo impressionante. Verde por todo lado, água em abundância e clima fresco, bem diferente do calor insuportável do restante do país. E, para completar a cena, os Himalaias, que em plena primavera podem ser vistos ainda bem branquinhos de neve à longa distância, fazendo os olhos se perderem no horizonte. Parques e jardins, lotados de flores e bem cuidados, completam as riquezas desse pedacinho da Ásia. E as rosas… ah! Magníficas!
Mas, o problema da Caxemira é, definitivamente, os habitantes de lá. A fama deles roda o mundo e não se deixa mentir. Há um ditado popular segundo o qual todos os dias saem na rua um trouxa e um esperto e o problema ocorre quando os dois se encontram. Pois é. Talvez esse dito popular não exista por aquelas bandas, mas se eles o conhecem, concordam plenamente. Nesse caso, os trouxas são os turistas (não somente os estrangeiros, mas até os indianos) e os espertos são eles.
O tempo todo, a regra é “passar a perna” em alguém. São capazes de dizer qualquer coisa só para vender. Aliás, para eles é inadmissível que alguém vá à Caxemira e não compre qualquer coisa. Não entendem que turismo é, sobretudo, conhecer e apreciar uma região. Se você é estrangeiro, então…Não é possível andar na rua por mais de um minuto sem que alguém ofereça algo. E são capazes de te seguir quarteirões e mais quarteirões sem desistir – muitas vezes, não sobra outra alternativa que não seja gritar e xingar, depois de um milhão de “No, thank you”. Mesmo o mais paciente perde a paciência com os “caxemiries”.
O passeio no Dal Lake, o lago mais famoso de Srinagar, a capital, é feito num barco chamado Shikara, cuja decoração se aproxima bastante do kitsch, como tudo na Índia. Mesmo no lago, em plena paz, dezenas de barcos se aproximam para oferecer produtos que vão de água mineral, comida e cigarros (de todos os tipos).
Comprar a pachemina, o produto mais famoso da região – xales ou echarpes feitos com a lã de uma ovelha muito rara e especial – é uma aventura. A verdadeira, de tão preciosa, nem fica nas lojas, mas não faltam vendedores querendo empurrar outro tipo como se fosse pachemina. A lã da Caxemira, de forma geral, é muito famosa no mundo todo e, por ser muito doce, sem realmente conhecer, é fácil cair no golpe.
Sinistros à parte, é hora de se aproximar das montanhas para ver os Himalaias de perto. A cidade mais próxima é Gulmarg, a apenas 60 quilômetros  de Srinagar, mas a três horas de ônibus – sim, as distâncias são um problema e, mesmo quando ela é pequena, a viagem é longa. A primeira parada é a 15 quilômetros do vilarejo, para que o indianos possam alugar roupas de frio – eles terminam o percurso já com enormes casacos, botas de plástico, luvas, cachecol e toucas, mesmo se o frio é ainda inexistente. O único problema em alugar é a certeza de que as roupas saem de um corpo e entram diretamente em outro sem, jamais, serem lavadas. A cor e o aspecto falam por si… Por isso, o melhor, é gastar um pouco de dinheiro para comprar roupas novas em alguma loja de Srinagar, pois a região é realmente fria e não há aquecedores nem nos hotéis.
Gulmarg é muito linda, mas o melhor é olhar sempre para cima, na direção das montanhas, pois o chão é repleto de fezes de cavalo (o transporte oficial da cidade) que, misturadas à neve que se desconegela nessa época do ano, deixam um aspecto nada agradável. A cidade é simpática, mas as pessoas… Também só querem se aproveitar – para a população de Srinagar dizer isso, dá para imaginar. Depois de constatar esse problema, a estadia de cinco dias se resumiu a dois.
Os hotéis têm preços de Paris. A comida dos hotéis, única opção, é complicada e, por fim, para subir às montanhas no teleférico é preciso jogo de cintura. Na abertura dos guichês para a venda dos ingressos, às 10h, as filas se transformam em arenas de luta livre, sendo necessária a intervenção da polícia para conter a multidão. Sorte é quando você encontra um funcionário gentil que lhe traz o ticket sem cobrar propina e ainda te deixa dentro do teleférico, sem enfrentar nova fila.
Mas, até mesmo dentro da cabine, está lá de novo o esperto… e a trouxa. Depois de esquiar nos Himalaias, a descoberta de ter pago por duas horas de equipamento e guia duas vezes mais do que se paga pelo mesmo serviço por uma semana inteira, em plena alta estação, no inverno, não deixa ninguém contente. E o guia ainda aparece no hotel com outros três colegas em busca de mais dinheiro… É nessa hora que a presença masculina se impõe!
Mas as montanhas compensam tudo. É uma paisagem que deixa qualquer um boquiaberto, é algo matavilhosamente extraordinário. É como abrir os abraços, se entregar de corpo e alma e ganhar o mundo. Uma experiência inexplicável.

KERALA


O Sul da Índia tem uma das paisagens mais interessantes do país. No estado do Kerala, os coqueiros, abundantes tanto nas grandes cidades quanto nos lugares mais isolados, são o denominador comum de uma mistura composta por belezas naturais e riquezas históricas. Foi nesse território que o navegador Vasco da Gama pisou em território indiano pela primeira vez, na cidade de Kappad, dando início à expansão portuguesa na Ásia.
Em Calicut, uma das cidades mais importantes e populosas, se concentram os grandes mestres da medicina aurvédica, um dos sistemas médicos mais antigos do mundo, e o Kalaripayat, arte marcial indiana. Do lado da saúde, ricos e pobres são atendidos pelos doutores que prometem curar qualquer tipo de doença, inclusive o câncer, e não apenas aliviar sintomas.
A ayurveda trabalha com o princípio de cuidar do corpo como um todo e encontrar a raiz do problema. O tratamento, à base de plantas medicinais, inclui óleos, massagens, banhos especiais, dieta bem controlada, ioga e meditação. Há mais de cinco mil anos, gerações e gerações de médicos acreditam que cada corpo é diferente e, por isso, mesmo se os pacientes têm os mesmos sintomas, o tratamento para cada um é único.
O Kalaripayat, por sua vez, trabalha com o desenvolvimento do corpo, o controle da mente e tem ainda seu lado medicinal, com massagens e tratamentos próprios. A luta em si é basicamente corporal, mas usa também escudos, espadas e bastões como instrumentos de ataque e defesa.
KOCHI É à beira-mar que o Kerala se revela particularmente especial. Em Kochi, a quatro horas de ônibus de Calicut, a paisagem reina absoluta e explica por que os exploradores europeus, principalmente portugueses, franceses, alemães e holandeses se fixaram no entorno do forte da cidade anos atrás. As construções em estilo colonial, deixando esta parte da cidade com cara de vilarejo europeu em pelo clima tropical, exibem as influências do passado ainda bem fortes.
A gastronomia é outro ponto forte: é possível comprar peixes e frutos do mar bem frescos nas barracas ou diretamente no barco do pescador e levar a um restaurante para serem preparados por um preço quase ínfimo.



GALERIA DE FOTOS 4


Depois de algum tempo desatualizado, Nosso Mundo Aqui volta a todo vapor, com mais capítulos da aventura indiana em fotos do Kerala e da Caxemira.

Aproveitem!

quarta-feira, 8 de junho de 2011

GRACIOSA E AGRESSIVA KUNDAPURA


Pequena cidade do estado do Karnataka, logo abaixo de Goa, Kundapura tem como principal atrativo uma praia livre de turistas e até mesmo de nativos. Correnteza forte, ondas pequenas e uma água deliciosamente morna são cenário perfeito para um banho de mar para lá de agradável. Mas estrangeiros acabam se tornando a atração principal da vizinhança. Se ao chegar há ninguém, o mesmo não se pode dizer depois de cinco minutos. Não se sabe de onde nem como, mas os indianos aparecem de repente e, sorrateiramente, espiam quem está na água. E podem ficar horas a fio, satisfazendo a curiosidade e a vontade – eles não passam da espuminha, só entram em grupo e vestidos da cabeça aos pés.
Se por um lado tudo é maravilha, de outro, toda a atenção ainda é pouca. Kundapura é reduto do BJP, o partido da extrema-direita hinduísta. Entre seus principais preceitos, está o ódio aos estrangeiros. Diante disso, a sensação de insegurança e de “personas non gratas” é constante e passa pelo olhar mortal de quem passa pelas ruas ao garçom do restaurante, que vai te servir com a cara mais amarrada do mundo, sempre vai errar o pedido e nunca vai te olhar – o que é melhor, pois do contrário, será com cara de quem quer te matar. Isso nos dois restaurantes localizados dentro do hotel, de altíssimo nível em termos de conforto, limpeza e atendimento.
Problemas até mesmo com a agência de viagem, que te vende um bilhete da pior compartimento do trem como se fosse de primeira classe – pelo menos descobrimos o golpe antes de embarcar.
Sendo assim, a melhor decisão às vésperas da final da Copa do Mundo de Criquet, o esporte nacional indiano, é deixar Kundapura e seguir viagem rumo ao Kerala. Já na semifinal, quando a Índia eliminou o Paquistão, a saída para a foto durou uns poucos minutos, devido aos ânimos um tanto quanto exaltados de quem passou a tarde bebendo. A confusão era iminente diante dos olhares agressivos.


sexta-feira, 22 de abril de 2011

GOA PORTUGUESA


O estado de Goa, na costa Oeste, mostra aos olhares estrangeiros algo entre o peculiar e o exótico, mistura que rapidamente revela uma outra Índia, diferente de qualquer parte do país. Seja na arquitetura, na linguagem ou no modo de vida da população, tudo ganha ares particulares. Ex-colônia portuguesa, assim como as cidades de Diu e Damão, guarda ainda raízes da língua portuguesa e exibe as influências europeias nas edificações em estilo colonial. Aliás, andar por Goa é sentir-se em casa. Em Panaji, a capital, as igrejas com a praça logo em frente cercadas por antigos casarões parecem as cidades históricas de Minas Gerais. Outras vezes, vielas e as escadarias em ruas estreitas dão a impressão de se estar em Lisboa. Sentimento ainda mais forte quando se vê o nome de logradouros indicados em finos azulejos. Ou quando os azulejos estão bem na entrada dos imóveis, escancarando o nome da família proprietária. Um verdadeiro pedaço de Portugal!
Os portugueses de Goa formam uma espécie de clã, orgulhoso de suas origens e saudoso dos tempos da colônia. Sangue português correndo nas veias e condenação no lugar da libertação são alguns dos conceitos repetidos inúmeras vezes por diferentes pessoas. O reduto de muitos é a Loja do Bento, especializada na venda de vinhos produzidos na Índia ou em Portugal e uísques. Local movimentado pelo vaivém de quem passa para beber um trago, dizer apenas “Oi” ou sentar para uma prosa mais longa. Aliás, de boa prosa eles entendem bem e são capazes de passar horas a fio contando um bom “causo”! Sem falar do futebol… Torcedores do Sporting e do Porto travam verdadeiras batalhas esportivas, engraçadas aos ouvidos de quem é neutro dentro do campo.
Na companhia de Sélvio Fernandes, o típico indiano com cara de português, descobrimos a hospitalidade goesa, várias facetas da cultura local e uma amizade livre de fronteiras. Além de um passeio gastronômico em elegantes restaurantes, em casa ou na simplicidade de um estabelecimento à beira-mar, dono de uma fineza culinária inesquecível. E como se não bastasse tanta generosidade, ele ainda é do tipo que ajuda no que precisar, a qualquer momento, sem pestanejar.
Mas, Goa tem várias faces. E, justamente por isso, atrai muitos turistas estrangeiros, principalmente em busca de sol e mar nos vilarejos – nesses locais, é grande a quantidade de russos e outras nacionalidades da Europa do Leste. E turistas significam injeção de dinheiro, um movimento que chega ao nível da ganância e que muda a cara de antes pacatas cidades. Não é possível andar 10 metros – sem qualquer exagero – sem ouvir a pergunta “Táxi?”, seja na capital ou, incrivelmente, até nos vilarejos, nos estreitos e sinuosos caminhos de terra até a praia. No fim do dia, a paciência fica inversamente proporcional à quantidade de abordagens. O pior é o preço cobrado, que ultrapassa os limites do bom senso.
No caso das praias, como em Anjuna, uma das cidades mais procuradas pelos estrangeiros, a frase-chave, num inglês parco, é: “Come visit my shop”. A “loja” nesse caso é uma tenda improvisada ao longo do caminho ou à beira-mar vendendo, principalmente, roupas. Ou, ainda, o modelo ambulante: todas as mulheres soltam as mesmas frases – “How are you?” e “From?” – para, em seguida, oferecer as bijouterias guardadas em pequenas caixas. Tudo normal se isso não ocorresse 10 mil vezes num curto período de tempo.
A comida também é um nó: além de ser muito mais cara que em Mumbai, por exemplo, tem uma qualidade bem inferior. O problema é que os moradores desses lugarejos têm seis meses para fazer dinheiro para os próximos seis, quando as chuvas chegarão e os turistas terão ido embora. Assim, explorar se torna básico, mesmo quando a oferta de restaurantes, táxis e “shops” é muito maior que o número de estrangeiros.
Os estrangeiros, aliás, além de capital em potencial, são a atração dos turistas indianos, por causa da roupa de banho. Indianos só entram no mar vestidos completamente (com a roupa do dia a dia mesmo, embora alguns homens se arrisquem a ficar de calção), em bando e não passam da espuminha. Logo, para eles é incrível ver as mulheres de biquíni, os homens de sunga e entrando mar adentro. A cena é motivo para homens e mulheres nativos passarem horas observando, tirar fotos ou até mesmo pedir aos estrangeiros para posar ao lado deles. Os mais tímidos preferem ser fotografados com os “peladões” ao fundo, numa discrição muito mal ensaiada!
DROGAS Outra face de Goa são as drogas lícitas e ilícitas. Como o estado é zona franca, o preço das bebidas é irrisório. Uma dose de uísque, por exemplo, custa cerca de R$ 1. Já uma garrafa de cerveja 600ml sai por menos de R$ 2. Também ponto forte do comércio, no caso das praias mais frequentadas pelos estrangeiros, é a venda de entorpecentes em qualquer canto e a qualquer hora do dia e da noite.
E, outra particularidade desses locais: nesse caso, em território de indiano o que se ouve é música eletrônica ou trance, seja na música ambiente dos restaurantes ou em festas organizadas à noite em bares à beira-mar. A maioria esmagadora dos frequantadores são turistas de fora do país, normalmente também responsáveis pela organização. Poucos indianos espreitam o que se passa, alguns na expectativa de flertar ou ter algo a mais com alguma estrangeira, já que entre os hindus o namoro é um capítulo bem diferente.
Mas isso não ofusca os bons momentos, como aqueles do fim do dia, na volta da praia, com parada obrigatório para jogar conversa fora com o funcionário Santoshi, um indiano que fala tudo o que os outros não falam, o suíço Bent (casado com uma indiana) e o finlandês Jan (lê-se Ian. Ele trabalha na bolsa de valores, passa cinco a seis meses em Goa há três anos consecutivos e opera as ações de seu computador, algumas horas do dia, longe do frio e bem perto do sol. Em junho, volta para casa para aproveitar o verão da Finlândia) .
Ou a oportunidade de participar de uma das datas mais importantes da Índia, o Holy Day, celebração da alegria, da chegada do ano novo dos hindus, em que a ordem é jogar pó colorido uns nos outros. Momentos em que se aprende um pouco mais sobre as concepções de vida de cada um e as surpresas de um mundo nem tão grande assim.


quarta-feira, 13 de abril de 2011

GALERIA DE FOTOS 3

Mais uma sequência de fotos para vocês também seguirem viagem! Agora, imagens de Mumbai, o centro econômico da Índia; de Goa, estado que já foi colônia de Portugal; e da cidade de Kundapura, no estado do Karnataka, mais ao Sul do país.

Cenas dos trens e das loucas estradas indianas também estão retratadas nesta galeria.

Apreciem!



terça-feira, 15 de março de 2011

GALERIA DE FOTOS 2

Mais fotos disponíveis! Desta vez, a magia do Taj Mahal e os encantos do céu de Agra, além de um passeio por Damão, a ex-colônia portuguesa.

Viajem!